São Paulo, 23 de Maio de 2019.

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Reflexões sobre Raulzito e a Sociedade Alternativa, por Celso Lungaretti


APRESENTAÇÃO

Vivi toda aquela loucura de 1968 como militante secundarista, participei da luta armada, fui preso político e depois fiz carreira no jornalismo.

Durante cinco anos trabalhei em revistas de música, com o pseudônimo de "André Mauro", pois meu nome real deixaria os censores ouriçados...

Lá por 1980 tive uma breve convivência com o Raulzito, principalmente porque ambos mantínhamos 1968 como referencial maior. Músicas tipo "Metamorfose Ambulante", "Cachorro Urubu" e "Sociedade Alternativa" lavavam minha alma, num momento em que a velha esquerda autoritária e rabugenta se reconstruía, passando como um rolo compressor sobre os sonhos da contracultura.

De papos sóbrios e etílicos que tive então com o Raul, posso dizer que o lance da sociedade alternativa era, basicamente, o que andou em voga no final da década de 1960: a idéia de agruparmos as pessoas com boa cabeça em comunidades que existissem, ao mesmo tempo, dentro do sistema (fisicamente) e fora dele (espiritualmente).

Nessas comunidades praticávamos um estilo solidário de vida, buscando reconciliar trabalho e prazer. Procurávamos ter e compartilhar o necessário, evitando a ganância e o luxo.

Acreditávamos que um homem novo só afloraria com uma prática de vida nova; quem quisesse mudar o mundo dentro das estruturas podres, acabaria mas é sendo mudado pelo mundo (como aconteceu agora com o PT).

Então, em vez de conquistar o governo para tomar o poder e construir uma sociedade mais justa, como tenta fazer (e nunca consegue) a velha esquerda, nós acreditávamos em ir praticando uma vida não-competitiva em comunidades que se entrelaçariam e cresceriam aos poucos, até "engolirem" a sociedade antiga. Mantenho esse ideal. Estou com um livro de memórias políticas ("Náufrago da Utopia", Geração Editorial) para ser lançado. Se obtiver o sucesso que eu espero, o projeto seguinte será o "Guia da Nova Utopia", em que pretendo exatamente resgatar os ideais e posturas da chamada Nova Esquerda dos anos 60, provando que, mais do que nunca, apontam o caminho para sairmos desse inferno que o capitalismo globalizado engendrou.

DETALHANDO A PROPOSTA
No tempo em que todos éramos malucos belezas havia a preocupação de liberarmos espaços para vivermos segundo nossas próprias regras. Eram as comunidades hippies, as faculdades ocupadas, os grandes festivais de rock. Era Arembepe, na Bahia. Eram as estradas que todos percorríamos. Eram os espaços de artesãos, como Embu-das-Artes. Hoje nos contentamos com comunidades virtuais que nos dão a ilusão de ainda fazermos parte de uma tribo. Só que não nos dão força para fazermo-nos valer, para influirmos realmente nos rumos da sociedade.

Nunca vi a juventude tão sem ideais, matando-se para empilhar diplomas que pouco adiantam para a conquista de bons empregos. Em vez de trabalhar para viver, estão todos vivendo para trabalhar. Hoje há mais liberdade individual, mas os grilhões econômicos são tão terríveis que poucos conseguem ser felizes de verdade. O primeiro passo para sairmos dessa situação de impotência é voltarmos a ter nossos "territórios livres", comunidades urbanas e rurais em que comecemos a construir a sociedade alternativa -- não como um ideal nas nuvens, mas como uma prática cotidiana.

Vamos tentar fazer algo neste sinistro início de século 21, mesmo com todos os bloqueios e barreiras. Chega de contemplação, é hora de voltarmos à ação! O NÉO-ANARQUISMO – Levantei este tema exatamente para ressaltar que, se a Sociedade Alternativa proposta pelo Raulzito tinha muito a ver com os livros do Crowley (que ele e o Paulo Coelho traduziam do original no início da década de 1970), como todo mundo diz, também se inspirava nas barricadas parisienses, na contracultura e nas comunidades hippies, o que poucos apontam. Ele e eu conversamos muito sobre isso; éramos ambos saudosos dos tempos em que tentávamos nos tornar homens novos na convivência solidários com os irmãos de fé, em nossos "territórios livres".

A referência ao maio/1968 francês é óbvia, p. ex., na 2ª estrofe de "Cachorro Urubu": "E todo jornal que eu leio/ me diz que a gente já era,/ que já não é mais primavera./ Oh, baby, a gente ainda nem começou." [Aliás, nosso relacionamento surgiu exatamente de uma matéria em que me queixei do descrédito que a grande imprensa queria lançar sobre as posturas de 1968, dez anos depois. Como tinha sido lançado um álbum de um show em favor dos direitos humanos que ficara muito tempo proibido, eu comentei que ouvir de novo "Cachorro Urubu" me lavou a alma. O Raul leu, gostou e me ligou, convidando para beber com ele num happy-hour da CBS]. Os conservadores (incluindo a velha esquerda stalinista) sempre tentaram reduzir a obra do Raulzito a uma provocação artística, sem maiores conseqüências políticas e sociais. Mas, ele não era meramente um gênio de comportamento anárquico, como tentam retratá-lo, folclorizando-o para torná-lo inofensivo. Era, isto sim, um homem sintonizado com o néo-anarquismo que esteve em evidência na Europa e EUA na virada dos anos 60 para os 70. E só não dizia isso de forma mais explícita em suas canções porque o Brasil era um estado policial, submetido a uma censura rígida (embora burra). Esse não era, claro, o único aspecto de sua multifacetada personalidade – talvez nem o principal. Mas é o que mais tem sido omitido pelos que querem fazer dele apenas um monumento do passado, não um guia para a ação no hoje e agora.

GERAÇÃO DAS FLORES - O RETORNO
Eu vivi na estrada e em comunidade, em 1971/72.

Foi uma experiência riquíssima. No final, entretanto, bateu o desânimo, o pessoal começou a se drogar demais, a polícia apareceu, um companheiro entrou em cana... melancólico. Por falta de opção, fui ser jornalista na vida. Mas, a situação era bem diferente: vivíamos acuados, num estado policial, em que todo mundo nos olhava com medo ou rancor por causa das cabeleiras e roupas extravagantes. Enquanto isso, a economia deslanchava e muitos sentiam-se tentados a ir buscar o seu quinhão do "milagre". Hoje já deu para o pessoal perceber o que é a sociedade de consumo e a posição de país periférico na economia globalizada. Eu, acostumado aos tempos em que se trabalhava para viver, não consigo aceitar que hoje as pessoas vivam para trabalhar, mobilizadas para objetivos profissionais umas 14 horas por dia (expediente, horas extras que dificilmente são pagas, cursos e mais cursos de atualização profissional, etc.). E tudo isso para quê? Para poder comprar um monte de objetos supérfluos e quase nunca encontrar relacionamentos gratificantes no dia-a-dia, pois as pessoas já não sabem mais interagir, querem apenas usar umas às outras. Então, fico pensando que, em lugar de levarmos vida de cão dentro do sistema, poderíamos todos estar nos agrupando em casarões da cidade e sítios no campo, criando pequenos negócios para subsistência, plantando, levando uma vida simples mas solidária. Reaprendendo a ter no outro um irmão e não um competidor. Essas comunidades urbanas e rurais se entrelaçariam, ajudando umas às outras, trocando o que produzissem, prescindindo dos bancos, escapando dos impostos e das formas de controle do Estado. Em suma, praticando criativamente, adaptados aos dias de hoje, os ensinamentos de Thoureau em "A Desobediência Civil". Seria um ponto de partida. E, conforme os "territórios livres" fossem crescendo, poderiam até virar algo mais sério -- uma alternativa para toda a sociedade. Enfim, o importante mesmo é começar a caminhada, dando um passo depois do outro. COMO FAZER – Nas comunidades de 1968/72, o que se fazia era reviver a velha democracia grega: reuniões para se decidir os assuntos mais importantes, para nos conhecermos melhor, para sonharmos e brincarmos. Podia começar num debate acirrado e terminar com todo mundo nu dançando ao som de "Let the sun shine in" (numa boa, com inocência, pois não éramos dados a sexo grupal). Enfim, tentávamos existir plenamente como grupo, esforçando-nos para superar o egoísmo e a possessividade. Havia problemas, claro. Emprestávamos o que o outro estava precisando mais, só que às vezes alguém tinha levado sem pedir o que a gente ia usar. Dava discussão e os limites tinham de ser depois definidos na reunião coletiva da nossa "comuna". Também não era fácil administrar o jogo das paixões. Minha amizade com um ótimo companheiro andou estremecida por uns tempos quando a namorada rompeu com ele e iniciou uma relação comigo. Por mais que quiséssemos nos colocar acima de sentimentos menores como o ciúme, eles existiam e nos machucavam. O importante, entretanto, era essa vontade que todos tínhamos de superar as limitações de nossa educação pequeno-burguesa e viver de forma generosa e solidária. Quando alguém tinha um problema, era de todos. Quando alguém estava triste, logo um companheiro ia perguntar o motivo. Tudo que podíamos fazer pelo outro, fazíamos. Onde erramos? As duas vaciladas fatais, que implodiram nossa comuna, foram: deixar a droga correr solta, o que trouxe à tona facetas da personalidade reprimida que o grupo não conseguia administrar; e receber de braços abertos todos os "pirados" que apareciam, de forma que acabaram circulando por lá pequenos marginais e a polícia veio atrás. Mas, as experiências que vivenciamos foram tão intensas que aquele ano valeu por uns cinco. Com algumas correções de rumo e numa conjuntura menos repressiva, as comunidades são viáveis, sim.

"Basta ser sincero e desejar profundo..."

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LM
Viagem fantástica!

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